Como a arquitetura do Brasil reflete sua identidade

A riqueza e a diversidade da arquitetura brasileira são reconhecidas por obras que datam do período colonial, antes do início do século XIX. Entre eles estão os sítios religiosos e fortes militares do século XVI, principalmente em Salvador, Bahia, o Barroco Mineiro do século XVIII, e o estilo barroco das igrejas, casarões e sobrados do estado de Minas Gerais. Grandes conjuntos arquitetônicos em cidades como Ouro Preto e Mariana abrigam obras-primas do grande escultor Aleijadinho, reconhecido como o primeiro grande arquiteto do Brasil.

Menos conhecida é a arquitetura do Brasil independente — e isso agora está em foco em uma exposição de quase 200 fotografias no India Habitat Centre, em Delhi. Esta exposição, projetada especialmente para a Índia, mostra a diversidade e a qualidade do ambiente construído do país e espera dar aos indianos uma noção da sociedade, economia, história e pensamento criativo do Brasil. O ensaio fotográfico de Cristiano Mascaro aborda a construção neoclássica, eclética e art déco no Brasil dos anos 1822-1930. As fotos de Leonardo Finotti mostram alguns dos símbolos da arquitetura modernista e contemporânea da década de 1930 até os dias atuais, um vislumbre de um Brasil que você pode testemunhar hoje.

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A exposição, que viajará para Calcutá no final do ano, abrange quatro fases: Monarquia (1822-89), a primeira fase da república (1889-1930), a fase de industrialização, urbanização, forte população e crescimento econômico (1930-1930). 84) e a Nova República (desde 1985). Ele fornece uma visão única sobre a qualidade e diversidade da cultura brasileira.

Muitos não sabem que o Brasil alcançou a independência política do domínio colonial português em 1822, quando o príncipe herdeiro Dom Pedro de Portugal tornou-se imperador Pedro I do Brasil. Ele governou um enorme território – duas vezes e meia maior do que a Índia hoje – com apenas cinco milhões de habitantes. Em 1831, Pedro I abdicou e retornou a Portugal (para se tornar Pedro IV de Portugal), deixando seu filho, o imperador Pedro II, como seu sucessor. O novo soberano governou durante um longo período de amadurecimento nacional, e a unidade foi construída em torno da corte no Rio de Janeiro.

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Ao longo de quase 70 anos de monarquia, os imperadores brasileiros replicaram, em seu país tropical, os estilos arquitetônicos encontrados na Europa, começando pelo neoclassicismo. Assim, em meados do século XIX, podiam-se facilmente localizar no Brasil diversos edifícios nos diversos estilos europeus.

Quando o país se tornou uma república em 1889, abriu caminho para a adoção de um novo estilo arquitetônico que refletia a tendência contemporânea: o ecletismo. Muitos prédios públicos, como estações de trem, mercados, teatros e gazebos, foram importados em grandes peças pré-fabricadas de aço e montados em todo o território. Hoje, essas obras mostram uma arquitetura industrial europeia que também está presente na Índia.



Talvez a primeira tentativa de encontrar um novo estilo nacional venha do art nouveau e do art déco no Brasil, nas primeiras décadas do século XX. A dimensão decorativa desses estilos permitiu a incorporação de elementos indígenas que deram personalidade particular a muitos edifícios, especialmente no Rio de Janeiro, então ainda capital do país.

A tradição modernista, construída em torno do conceito metafórico de “antropofagia” (“comer” todas as influências estrangeiras, digeri-las e criar algo novo), foi desenvolvida por intelectuais no contexto da Semana de Arte Moderna (São Paulo, 11-17 de fevereiro de 1922 ). Reconheceu as contradições brasileiras e a legitimidade da busca de identidade na mistura cultural do país. Dos indígenas aos africanos, dos colonizadores portugueses aos imigrantes italianos e japoneses, tudo se infunde no Brasil.

Somente após a revolução de 1930 – quando um grupo de políticos decidiu iniciar um forte projeto de industrialização no Brasil – os ideais do modernismo brasileiro da Semana de Arte Moderna ganharam destaque na arquitetura. Mais uma vez, a arquitetura tornou-se símbolo de uma fase política brasileira. Pela primeira vez, porém, o Brasil tornou-se um exportador de ideias arquitetônicas. Os modernistas pós-1930 não apenas desenvolveram uma arquitetura de alta qualidade baseada no melhor conhecimento e pensamento disponíveis no mundo (em particular os princípios de Le Corbusier), mas também estudaram e preservaram as construções dos séculos anteriores no Brasil. Desde então floresceu uma arquitetura adaptada ao clima tropical do país, muitas vezes enriquecida com referências históricas do período colonial.

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O Brasil é um dos países que absorveu os preceitos da arquitetura moderna das formas mais interessantes — e isso ajudou a fortalecer a identidade nacional. Ao contrário de outros países, que, ao longo dos séculos, desenvolveram uma arquitetura típica nacional reconhecível – às vezes de forma caricatural – até mesmo em outros países, a arquitetura brasileira é essencialmente moderna, não tanto uma herança do passado.

Com o complexo da Pampulha em Belo Horizonte (1942), e mais ainda com a construção de Brasília (1957-60), a arquitetura moderna brasileira ganhou reconhecimento em todo o mundo. A aventura de transferir a capital do país para uma região isolada e distante tornou-se um assunto de enorme interesse e sua inauguração atraiu a cobertura da imprensa internacional.

Brasília é um exemplo único de arquitetura modernista e planejamento urbano concretizado no século XX. Foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1987 e nomeada “Cidade do Design” pelas Nações Unidas em 2017. O impacto visual dos prédios oficiais de Brasília – especialmente a beleza e originalidade do Congresso, da Catedral e dos Palácios da Alvorada e do Planalto —Tornou o arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) fenomenalmente famoso.

Teatro José de Alencar, Fortaleza

Teatro José de Alencar, Fortaleza


A arquitetura moderna brasileira é muito mais variada do que se imagina a princípio, e vários outros, além de Niemeyer, alcançaram excelência em seus trabalhos desde a década de 1930. A lista inclui Lúcio Costa, Gregori Warchavchik, Affonso Eduardo Reidy, Villanova Artigas, Lina Bo Bardi, Lelé (João Figueiras Lima) e Paulo Mendes da Rocha, entre muitos outros. Outro exemplo interessante é Roberto Burle Marx, que foi o primeiro jardineiro do século 20 a valorizar as plantas tropicais como elementos essenciais de importantes parques e jardins. Graças a ele, a integração da arquitetura e do paisagismo, com suas formas sinuosas e coloridas, tornou-se uma das características mais fortes da arquitetura moderna brasileira.

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A nova geração vem explorando caminhos mais contemporâneos, enriquecendo e fortalecendo a tradição arquitetônica do país, especialmente o modernismo. Também no urbanismo, Jaime Lerner tornou-se uma voz central na definição de soluções para cidades mais sustentáveis. A exposição no India Habitat Center traça a evolução através das obras recentes de mais de 30 arquitetos contemporâneos — como Angelo Bucci, Gustavo Penna, Isay Weinfeld, Arthur Casas, Marcio Kogan, Brasil Arquitetura, Paulo Jacobsen, Thiago Bernardes, Gustavo Utrabo, Morettin , Álvaro Puntoni e Carla Juaçaba.

Ao desenvolver uma forma particular de abordar a modernidade na arquitetura, o Brasil teve um papel central na arquitetura do século XX, por vezes exercendo forte influência mundial. Por não pertencer ao clube das nações ricas com longa tradição na história da arquitetura, no entanto, a arquitetura moderna brasileira enfrentou forte resistência, visto que parecia muito difícil para alguns críticos reconhecer os méritos das construções em um país periférico. Mas isso torna a arquitetura brasileira ainda mais relevante hoje, no contexto do desafio de integrar milhões de pessoas em cidades do mundo em desenvolvimento.

‘Building Brazil 1822-2022’ está em exibição no India Habitat Center, em Delhi, até 24 de abril e viajará para Calcutá no final do ano. Para mais detalhes, confira BrazilEmbassyIN no Twitter e Instagram.

André Aranha Correa do Lago é o embaixador do Brasil na Índia. Como crítico de arquitetura, publicou livros e artigos, e foi curador de uma série de exposições. Atualmente é um dos membros do Prêmio Pritzker de Arquitetura.

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