Real Gabinete Portugués de Lectura: A biblioteca mais bonita do Brasil viraliza | Cultura

As segundas-feiras são o horário mais popular para visitar o Real Gabinete Português de Leitura, ou Real Gabinete Português de Leitura, o grande santuário do livro e da cultura portuguesa no Brasil e uma das mais belas bibliotecas do mundo, localizada no coração da extensa cidade litorânea do Rio de Janeiro. No sábado, 25 de junho, quando a maioria dos outros museus e institutos culturais do Rio estavam fechados para o fim de semana, o Gabinete Real recebeu um fluxo interminável de visitantes. A luz natural filtrando-se pela clarabóia, iluminando vagamente a sala de leitura, com suas paredes altas de lombadas de livros multicoloridas – quase 400.000 volumes antigos encadernados em couro no total. Durante décadas, os académicos valorizaram esta biblioteca espetacular – a maior coleção de autores portugueses fora de Portugal – como um local de estudo tranquilo. Mas nos últimos anos, tornou-se um cenário cada vez mais popular para fotos e selfies, com multidões de visitantes invadindo o imponente salão principal para contemplar as paredes de livros e posar para postagens nas redes sociais.

O Gabinete Real era uma das joias culturais pouco conhecidas do Rio, até se tornar viral no Instagram e no TikTok. Como explica o coordenador de longa data da instituição, Orlando Inácio: “É um efeito das redes sociais. Eles vêm, tiram fotos, fazem postagens, aí os outros veem e querem vir também.” A popularidade da biblioteca começou a aumentar na época em que a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 chegaram ao Rio, quando a revista Time chamou o Gabinete de a quarta biblioteca mais bonita do mundo. Sua fama só cresceu desde então.

Visitantes e turistas fotografam o salão principal do Real Gabinete Português de Leitura.Leonardo Carrato

A nova multidão de visitantes convive, muitas vezes de forma desajeitada, com os habitantes tradicionais da biblioteca: estudiosos da história, literatura e cultura portuguesas. Um punhado de pesquisadores, sentados em pequenas mesas, lutam para se concentrar em sua leitura em meio à agitação de turistas e moradores locais imortalizando o momento com seus smartphones. Qualquer um pode emprestar livros, diz a bibliotecária Sylvia Franca, mas poucos leitores leigos visitam a biblioteca pelo conteúdo de seu acervo.

A história do Gabinete Real é semelhante à de outras instituições culturais lusófonas do país. Foi fundada há 185 anos por um grupo de cerca de 40 imigrantes portugueses, apenas 15 anos após a independência do Brasil. “Eles criaram a biblioteca em 1837 para melhorar a educação cultural da comunidade portuguesa no Rio, já que a maioria dos que vinham não tinha educação formal”, explica Francisco Gomes da Costa, presidente da biblioteca, nascido em Portugal. “Eles chegavam sozinhos e depois mandavam buscar suas esposas e filhos. Também fundaram liceus literários para instruir os imigrantes na leitura e na escrita, e fundaram casas de socorro para prestar assistência social à comunidade imigrante portuguesa”, diz Da Costa, que atravessou o Atlântico, sozinho, com apenas 17 anos, seguindo em os passos de seu tio.

Adolescentes em vestidos de praia e chinelos, casais de meia-idade em shorts e famílias com carrinhos de bebê correm para encontrar lugares vagos para posar em frente às estantes altas de livros, que abrangem a amplitude da literatura portuguesa e incluem códices e manuscritos dos últimos séculos.

Entre os milhares de volumes estão as preciosidades da biblioteca: uma primeira edição de Os Lusíadasa epopeia de Luís de Camões de 1572, adquirida aos jesuítas; Ordenações de Dom Manuel, publicado em 1521; e o manuscrito original de Amor de Perdiçãoescrito por Camilo Castelo Branco em 1861.

Visitantes e turistas fotografam o salão principal do Real Gabinete Português de Leitura.
Visitantes e turistas fotografam o salão principal do Real Gabinete Português de Leitura. Leonardo Carrato

Para a grande maioria, esta é a primeira visita (e provavelmente a última). É o caso do turista francês Florent T, de 40 anos. “Vi as fotos no Instagram e ficaram lindas”, diz Florent. “Mas é ainda mais bonito na vida real.” Turistas estrangeiros se misturam com veranistas brasileiros, além de visitantes do próprio Rio, muitos vindos da periferia da cidade. Depois de conhecer a biblioteca em um vídeo do TikTok, Lucas, um estudante de 18 anos, e suas amigas Kaylane e Maria Clara, pegaram um trem e um Uber até Bangú, bairro da Zona Oeste do Rio.

A professora Marceli Braga, 41 e também carioca, conhecia a instituição, mas nunca tinha visto o interior de sua majestosa sala principal até então. “Nós nunca viemos antes porque geralmente não está aberto nos fins de semana”, diz ela. O jornalista Bruno Barreto, 36, trouxe a mãe, junto com o restante da família, para mostrar o cenário de seu novo romance, intitulado A chave (A Chave)que ele descreve como “uma viagem no tempo”.

De certa forma, a nova fama da biblioteca fez com que muitos cariocas – como são conhecidos os cariocas – que nunca tinham visto o interior do Gabinete Real, ou nem sabiam que poderiam visitar gratuitamente tal tesouro cultural e arquitetônico, agora estão descobrindo suas maravilhas pela primeira vez. A biblioteca está em sua localização atual desde que o prédio foi inaugurado em 1887 pela princesa Isabel, nos anos finais do Império brasileiro. “Mesmo naquela época, abrigava cerca de 50.000 livros”, diz Da Costa.

Edição antiga de Os Lusíadas, de Luis de Camões — parte da coleção do Real Gabinete Português de Leitura.
Edição antiga de Os Lusíadas, de Luis de Camões — parte da coleção do Real Gabinete Português de Leitura. Leonardo Carrato

À primeira vista, muitos confundem o Gabinete Real, com a sua imponente fachada modelada a partir do Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, Portugal, com uma igreja, e fazem o sinal da cruz antes de entrar.

Desde o início, a biblioteca foi projetada para durar: foi construída para suportar o clima quente e úmido do Rio, bem como o potencial de incêndio. Isso é, em grande parte, o que dá à sala de leitura principal sua personalidade única – seu estilo ornamentado, neo-manuelino e aparência de átrio. A estrutura e as paredes do edifício são feitas inteiramente de ferro, e as estantes são construídas em jacarandá, uma madeira de lei densa. O trágico incêndio de 2018 que consumiu o Museu Nacional do Brasil – a instituição científica mais antiga do país, também localizada no Rio – é suficiente para dar pesadelos a qualquer gestor cultural. Esse museu também recebeu poucos visitantes – menos, pelo menos, do que a manifestação de tristeza após sua destruição pode levar a crer. Em seu último ano de funcionamento antes do incêndio, o Museu Nacional teve menos visitantes do que o número de brasileiros que passaram pelo Louvre, em Paris.

Graças às muitas doações recebidas e compras feitas ao longo dos últimos quase dois séculos, o Real Gabinete Português de Leitura abriga agora entre 350.000 e 400.000 volumes. “Temos que ser bastante seletivos com nossas aquisições”, diz Da Costa. A biblioteca inclui obras que documentam o legado de Marcelo Caetano, primeiro-ministro de Portugal deposto pela Revolução dos Cravos em 1974, que fugiu para o Brasil, então sob ditadura.

Portugal possui uma das livrarias históricas mais bonitas do mundo: a Livraria Lello, na cidade do Porto. Mas como uma potência colonial, o país trabalhou para manter seus súditos em um estado de completa ignorância por séculos. Desde a chegada de Pedro Álvares de Cabral ao nordeste da América do Sul em 1500, até a saída da família real portuguesa do Brasil em 1808, a fuga das tropas de Napoleão, livros e impressão eram proibidos. Eles tiveram que ser contrabandeados para a colônia. De fato, a aversão do regime colonial à educação fez com que só no final do século 20 o Brasil abrisse sua primeira universidade.

Retrato de Francisco Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura, em pé na sala principal da biblioteca.
Retrato de Francisco Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura, em pé na sala principal da biblioteca. Leonardo Carrato

O Gabinete Real também é único por servir como um dos “depósitos legais” de Portugal, ou repositórios nacionais de livros, por mais de um século – um privilégio que, até recentemente, era compartilhado com a ex-colônia de Macau. Todos os anos chega uma remessa com um exemplar de cada livro publicado na antiga metrópole brasileira. “Eles nos enviam cerca de 10 toneladas de livros por ano, de barco”, diz Da Costa. Traduções para o português de obras de nomes como Thomas Piketty e Henry Kissinger estão em prateleiras modernas instaladas em anexos adjacentes ao prédio principal da biblioteca.

O Real Gabinete de Leitura não recebe qualquer apoio dos governos português ou brasileiro. Em vez disso, a instituição paga suas contas com os lucros gerados por suas participações imobiliárias. “Não temos muitas propriedades, mas o que temos é muito bom”, diz Da Costa, que já atuou como diretor executivo da filial brasileira do Banco de Santander, uma das maiores instituições bancárias do mundo. “O centro da cidade está sofrendo agora, mas vai se recuperar em breve”, diz ele. O centro histórico do Rio, que abriga centenas de escritórios e empresas, é movimentado durante a semana, mas quase deserto aos sábados e domingos, quando as únicas pessoas ao redor são os sem-teto da cidade. É por isso que a biblioteca mais bonita do Brasil costuma funcionar apenas em horário comercial, de segunda a sexta-feira.

Vista da sala principal do Real Gabinete Português de Leitura.
Vista da sala principal do Real Gabinete Português de Leitura.Leonardo Carrato
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